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Artigo - Perspectivas na Conservação?

Perspectivas na Conservação?

25/03/2018 Autor: Gertrud Schrik

"O que diz Hans Jones em O Princípio da Responsabilidade".


E se o novo modo de agir humano significasse que devêssemos levar em consideração mais do que somente o interesse 'do homem', pois nossa obrigação se estenderia para mais além, e que a limitação antropocêntrica de toda ética antiga não seria mais válida?

Hans Jonas, em 'O Princípio da Responsabilidade'

 As abelhas surgiram no Cretáceo, junto com as plantas com flores, mas seu futuro no Antropoceno não está muito claro. A Apis melífera está sofrendo e morrendo no mundo inteiro. As extinções em massa estão mundialmente em patamares altíssimos e perigosos. Os oceanos estão acidificando e entulhados de lixo. As mudanças climáticas já têm seus efeitos sentidos.

As abelhas nativas solitárias e sem ferrão sofrem também por falta de conhecimento e reconhecimento. Seu papel na polinização -elas são responsáveis pela reprodução e variedade genética de muitas plantas- é largamente desconhecido, enquanto isto é um eco-serviço vital para humanos. A importância delas na conservação da biodiversidade para a manutenção do funcionamento de ecossistemas inteiros então... seu valor genético... ou pior ainda: seu valor intrínseco...

Há quem confia ou aposta na resiliência de sistemas naturais, mas o tempo está curto, e as poluições, os desmatamentos e os altíssimos consumos de recursos continuam; e o homo sapiens (sapiens?!?) continua se esparramando pelo planeta. Sim, há uma crescente consciência ambiental e as vozes pelo desenvolvimento sustentável são cada vez mais frequentes. E surgem posicionamentos inovadores: no Equador, na Índia e Nova Zelândia houve reconhecimento de rios como entidades legais... quem sabe se um dia as matas brasileiras não terão seus direitos assegurados por lei? Afinal o 'eu sou o rio, o rio é eu' dos Iwi não é tão diferente do 'nós somos a floresta' que se ouve de povos indígenas aqui. Aposto que as abelhas adorariam.

Infelizmente no Brasil este tipo de conhecimento e preocupação ainda é limitado. Num país com 12 meses de sol por ano, o uso de energia solar é irrisório. Num país onde a maioria da população tem baixíssima escolaridade a agroindústria envenena tudo e ninguém fala nada. O desmatamento no Amazonas já causou seca grave no Sudeste, mas poucos sabem o que são rios voadores e a seca já foi esquecida. Junte o fato de ser ex-colônia, com estruturas de poder antiquadas e megacorruptos, com grande parte da população não-nativa, que mal conhece a biodiversidade. O Brasil é um dos países mais desiguais e violentos do mundo... Um cenário nada animador para conservacionismo.

E quais são os dados oficiais? No Livro Vermelho constam 627 espécies de fauna reconhecidos pelo governo como ameaçados de extinção. Entre os Apidae constam três espécies: Exomalopsis atlântica, Melipona capixaba, a Uruçu-negra, e Xylocopa truxali. Nas listas estaduais estes números aparentemente são maiores. E: "Na realidade, esse pequeno número de espécies ameaçadas (em torno de 0,1% do total estimado de espécies) talvez reflita apenas a nossa falta de conhecimento sobre o estado de conservação das espécies [...]" (Livro vermelho da fauna brasileira ameaçada de extinção, MMA, Fundação Biodiversitas, Belo Horizonte, 2008, p. 316). Onze espécies indicadas para a lista das ameaçadas não foram incluídas por falta de informações. E ainda há o grande número de espécies desconhecidas, das quais provavelmente muitas são endêmicas de ambientes ameaçados. Propõe, para reduzir os impactos de destruição, redução e fragmentação de habitat -causando falta de lugares para nidificação e recursos florais- a conectividade entre remanescentes florestais. E ressalta que a perda de habitat e a consequente diminuição das populações pode causar, por causa da endogamia, um aumento em machos diploides em lugar de operárias, enfraquecendo ainda mais as colônias, e aumentando o risco de extinção. O texto também fala, no caso do Uruçu, da exploração predatória de mel e da translocação de colônias inteiras para meliponários. E frisa o risco de hibridização com a Uruçu-do-Nordeste, Melipona scutellaris. "Como a hibridização pode levar à descaracterização da espécie, a criação da Uruçu-do-Nordeste no Espírito Santo deve ser terminantemente proibida." (idem, p. 383). Propõe ainda medidas específicas para inibir as práticas de extração predatória de mel e a captura de enxames silvestres das abelhas indígenas sem ferrão em áreas de preservação. "Essas medidas específicas exigem esforço de educação ambiental e [...] o investimento em desenvolvimento de práticas de manejo racional das abelhas, de forma a reduzir a pressão sobre suas populações silvestres onde essa atividade tiver alguma importância para as populações locais." (idem, p. 317). E, no caso da Xylocopa, sugere que "[...] a translocação de indivíduos entre populações pode vir a ser uma estratégia interessante [...]" (idem, p. 384), após os devidos estudos, para manter ou aumentar a variabilidade genética de pequenas populações isoladas.

Somadas a uma situação que não inspira otimismo, muitas lacunas e incertezas então. Mas uma linha geral de medidas e ações que poderiam fazer a diferença está clara. Mãos à obra, antes que seja tarde!

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